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19 setembro 2008

CANDICE - capítulo 25 - final

leia toda a história- Putz, não acredito! Coloquei as mãos para cima devagar e fui me virando lentamente. Por entre as venezianas semi-abertas da janela lateral, a luz vermelha do nascer do sol me revelou uma figura de mulher. Encharcada, com um vestido branco grudado no corpo, segurava com as duas mãos uma arma apontada na minha direção. O tempo parou!
Nenhum ruído, até o mar silenciou. Pude então ver o seu rosto, ao mesmo tempo em que ela me encarava. Com espanto, nossos olhares se cruzaram. Ficamos ambos calados por um tempo sem acreditar na situação. Sem conseguir imaginar que aquilo fosse possível. TUC, TUC, TUC... As mangas do seu vestido começaram a gotejar quebrando o silêncio.

O tempo voltou a avançar. Com os olhos fixos nos meus, ela foi baixando os braços lentamente e pude ouvir o gatilho ser desarmado. Seus olhos ficaram úmidos, talvez porque tenha sido tomada pelas mesmas lembranças que eu...
Ela deu dois passos na minha direção, com a cabeça levemente inclinada para frente como se procurasse certificar-se de que era realmente eu que estava ali.
Parou junto à cama e sentou-se na borda. Com o olhar ainda fixo no meu, um suave sorriso emergiu de seu rosto até então sério. (Acho que no meu também)
Parecia uma visão. Ali estava ela, exatamente como há quinze anos atrás. Linda! Minha primeira namorada, minha única paixão...
Exclamamos juntos;
- MAIA - CANDICE!
- O QUE VOCÊ TA FAZENDO AQUI?
Bom, o que rolou depois não é muito difícil de imaginar.

Candice dividiu a grana com a Margô.
Ela acabou ficando na Austrália quando seguimos com o veleiro para a nossa primeira volta ao mundo. Perdemos o contato. Acho que ela ainda tinha expectativas em relação à Candice. Sei lá.

De tempos em tempos quando passamos por Wavetoon, retornamos a ilhota pra matar a saudade da direita da Ponta Sul. Até reformamos a casinha.
Agora mesmo eu estou aqui, escrevendo esta história sentado na varanda e olhando para a última onda do dia. Uma parede perfeita azul turquesa, transpassada pela luz do poente e suavemente tocada pelo vento da terra vem rolando na minha direção. Nela está a Candice, deslizando suavemente com o pé no bico e um sorriso no rosto. Olho mais para a direita e o sol toca o horizonte tingindo tudo de vermelho. Giro a cabeça para a esquerda, e o meu fiel amigo Rato, entra no plano de visão, correndo e latindo atrás das gaivotas. Como sempre.
Sei o que você está pensando: Vida difícil!

Relembrando tudo isso, difícil mesmo foi tentar entender como o destino me colocou nesta situação. Fui assaltado por minha primeira namorada sem saber que era ela, fiquei numa tremenda roubada no meio do nada depois de estar curtindo um surf solitário e relaxante... E então? Então acabo milhonário, com a mulher dos meus sonhos e o resto da vida pela frente...
Vida difícil!

04 setembro 2008

CANDICE capitulo 24

leia os capitulos anteriores - Estava exausto depois de toda aquela trabalheira, mas com toda a grana limpinha, organizada e empacotada para viagem. Uma tormenta se armou no oeste, nuvens chumbo fecharam o continente e a noite caiu rapidamente. Achando arriscado fazer a travessia à noite, pensei ser melhor dormir cedo e sair fora ao amanhecer em direção a minha nova vida. É claro que eu não consegui dormir direito, passei a noite rolando na cama, cochilando e acordando. Além da tempestade e das trovoadas, aquela grana toda invadiu a minha alma, me enchendo de ilusões e ansiedade. Inevitável. Um turbilhão de cenas e situações passava como um filme na minha cabeça ilustrando o meu possível futuro.

Acabei relaxando e dormindo um pouco quando o dia já estava por amanhecer. O pai da Candice novamente apareceu nos meus sonhos. Parado em pé sobre um monte de dinheiro, o velho estava calmo e me olhava com um olhar compassivo enquanto com uma mão apontava para o mar e com a outra segurava Candice, linda, que flutuava ao seu lado como um espectro, encharcada pela chuva forte que caía sem parar.
AUAUAU! O insistente latido do Rato me tirou por alguns momentos de dentro do sonho. Imaginei por instantes, a cena dele correndo lá fora atrás das gaivotas.

Voltei a dormir.
O Rato agora latia para o pai da Candice enquanto ele me olhava nos olhos e repetia como um mantra, umas palavras que eu não conseguia identificar.
Um vento forte soprava os cabelos da garota na minha direção e o seu fantástico perfume novamente invadiu as minhas narinas.
INNNNHEEEEC! Acordei novamente com o barulho da dobradiça. De costas para a porta do quarto, me encolhi esperando o Rato saltar sobre a cama para me acordar. Isso já tinha se tornado um hábito para ele. - Cão danado. Pensei; - não me deixa dormir sossegado.

- Estranho, mesmo acordado continuo a sentir o perfume do sonho. Pensei confuso, meio sem entender como aquilo seria possível enquanto me virava para a porta.
- FICA QUIETO SENÃO EU TE APAGO! Ela falou sem alterar voz e o seu cheiro invadiu o quarto...segue

29 agosto 2008

CANDICE capitulo 23

leia os capítulos anteriores - Sonho ou realidade? Meu cérebro demorou um pouco para processar a informação enviada pelos os meus olhos. Esfregando o rosto, e sem acreditar no que via, esquadrinhei as imediações do saco de ração com um olhar atento. Era dinheiro mesmo!
– IIIIHAAAAAA! ENCONTREI IIIIIIIIIIIII A GRAAAAAAAANA! Gritei com gana espantando as aves de uma só vez e acordando o Rato que dormia próximo dali alheio o alvoroço das gaivotas.

Estava repleto de dinheiro misturado com a ração para cães. Meio zonzo, fiquei pensando porque elas haviam colocado o dinheiro dentro de um saco de ração? Mas isso não vinha ao caso, levantei e fui avaliar o achado.
Tirei o saco do meio das pedras e abaixo dele havia outros de lona plástica cheios de grana, notas de R$ 100,00, novinhas em maços de 10 cm. A cada saco que eu puxava para fora do buraco, meu batimento cardíaco aumentava 10 e a minha imaginação aumentava 20.
- CÃO ESPERTO! Falei alisando o lombo do meu amigo que me olhava parecendo entender a minha alegria. Liguei o Ipod, coloquei os fones e estava rolando um Ben Harper...

I knew a girlHer name was truth
She was a horrible liar
She couldn´t spend one day alone
But she couldn´t be satisfied
When you have everything
You have everything to lose
She made herself a bed of nails
And she´s planning on putting it to use
But she had diamonds on the inside
She had diamonds on the inside
She had diamonds on the inside
Diamonds
A candle throws its light into the darkness
In a nasty world so shines a good deed
Make sure the fortune that you seek
Is the fortune that you need
Tell me why the first to ask is the last to give every time
What you say and do not mean
Follows you close behind…

Ao som do cara, passei as horas seguintes trabalhando pesado levando os sacos um a um, no lombo, até a casinha na praia. Foram dez sacos e dez viagens. Durante a dura tarefa de carregar todo aquele peso por quilômetros, várias vezes sonhei o futuro, e fiz planos para o resto da vida... segue

22 agosto 2008

CANDICE capitulo 22

leia os capítulos anteriores - A pirâmide tinha mais ou menos um metro de altura. Empurrei a pedra do topo e fui movendo uma a uma até surgir um volume enrolado numa lona plástica. Parecia uma caixa. O Rato não parava de latir e aquilo começou a me deixar nervoso. Dei uma corrida no cara e continuei concentrado na tarefa, já supondo ansiosamente o que eu poderia encontrar ali.
Lá de cima olhei para a arrebentação e uma série quebrando perfeita passou rolando ao lado das rochas enquanto uma brisa da terra suavemente alisava as cristas atraindo minha atenção de maneira hipnótica. Quando o meu olhar se voltou para baixo, a lona havia sido removida pelo vento revelando-me o conteúdo.

Um saco de 50 kg de ração para cães? Putz...que merda! Então é por isso que você me fez vir até aqui! Cachorro danado! Desanimado com a revelação, voltei meu olhar para o mar enquanto o Rato caía de boca no pacote. A imagem de um veleiro branco cruzando a linha do horizonte tornou inquieto o meu espírito, foi o primeiro barco que eu vi passar por ali enquanto estava na ilha. Inevitável pensar nas garotas. Mas ele estava bem longe e ia numa direção oposta a minha. Assim, cansado e meio sonolento, deitei sobre o rochedo aquecido pelo sol com as mãos atrás da nuca. Aconchegado pelo calor da pedra e embalado pelo ruído ritmado do oceano, meu corpo relaxou e adormeci.

- Quác, quác! O grito das gaivotas migrava do meu sonho para a realidade. Enquanto eu abria os olhos lentamente, o azul do céu contrastava com alguns pássaros brancos que sobrevoavam o meu corpo. - Quác, quác! Sonolento olhei para o lado e pude ver dezenas de gaivotas amontoando-se na tentativa de comer as sobras de ração para cães que saíam do saco arrombado pelo Rato. Junto a montes de bolinhas escuras, maços de notas espalhavam-se pelas rochas... segue

15 agosto 2008

CANDICE capitulo 21


leia os capítulos anteriores - Então esta é Ponta Sul que a Candice falou no seu diário! Eu pensava, sentado na prancha enquanto mais uma das séries fantásticas, que entravam a cada quinze minutos despontava na linha do horizonte.

No drop, eu tinha que ser rápido, com uma mão na borda e a outra riscando a onda, já colocado para o tubo. Depois de rodar por alguns segundos, a parede longa, perfeita e transparente, abria-se por uns cem metros na minha frente. Passei a mão no cabelo para tirar o excesso de água que escorria para os meus olhos, ajeitei o corpo na prancha e deslizei imóvel até o fim da onda, simplesmente olhando e sentindo aquele milagre da natureza, que agora me envolvia de maneira espetacular, numa manhã qualquer em uma ilha perdida no atlântico sul.

Sentado no line up entre uma onda e outra, eu fiquei pensando no quanto resistimos em fluir na vida, em simplesmente relaxar e seguir o seu fluxo. Ao contrário, estamos sempre tentando remar contra a correnteza, tentando domina-la, submete-la aos nossos planos e objetivos. Mas a vida é incontrolável e o destino não segue exatamente os nossos planejamentos. Assim, só nos resta viver um dia de cada vez e tentar pelo menos, ir na direção que manda o nosso coração.

Observando o Rato lá na ponta de pedras, comecei a ficar intrigado. Cada vez que ele notava o meu interesse, seu comportamento mudava e o cão parecia fazer de tudo para chamar minha atenção. Não resistindo à curiosidade, peguei uma onda para sair. Larguei a prancha na beira da praia e fui caminhando lentamente na direção das rochas. Quanto mais eu me aproximava, tanto mais o Rato ficava excitado. Pulava e latia em volta de uma pirâmide de pedras que não parecia ter uma organização muito natural. Quando cheguei mais perto, ficou claro que aquela formação havia sido feita por alguém... segue

30 julho 2008

CANDICE - capítulo 20


leia os capítulos anteriores -Estava tudo lá, intocado, foi só descer e pegar. Não me demorei muito e logo voltei para o bote. Liguei o motor e segui novamente para a ilha, agora com comida suficiente, com o resto das minhas coisas e bastante tempo para procurar a grana. Quando depois de quase duas horas cheguei à casinha, preparei uma bela macarronada e adormeci exausto no pequeno sofá da sala.

Acordei assustado, com o Rato lambendo meu rosto e latindo freneticamente em direção a rua. A luz do sol nascendo lá fora tingia a sala de vermelho, e um calor agradavelmente seco, acolhia meu corpo, resfriado pelo vento noturno que invadiu a casa pela porta da frente que não me preocupei em fechar.

Saltei do sofá e o Rato imediatamente correu para rua, ficou lá, latindo e me olhando como se estivesse querendo mostrar-me algo. Saí à porta e assim que ele me viu começou a correr pela praia em direção ao canto sul. Intrigado, resolvi ir atrás dele. De tempos em tempos parava e certificava-se que eu o estava seguindo, dava uns dois ou três latidos e continuava correndo. Continuamos no trote por uns dez minutos, passamos pelo canto sul da “praia da casa” e Rato enveredou por umas trilhas no mato. Eu estava meio perdido, mas sabia que íamos, na direção do sul da ilha.

Depois de vários sobe e desce, viradas a direita e esquerda chegamos a uma trilha reta que dava no fim do mato. De dentro do túnel verde eu podia ver o horizonte e conforme ia me aproximando da clareira, linhas azuis, límpidas e paralelas atravessavam a minha visão. Hipnotizaram meu olhar. Acelerei o passo para descortinar de uma vez, aquilo que a minha imaginação já supunha.

Na panorâmica que abriu-se a minha frente, um point-break de pedras, alinhava direitas perfeitas com mais de um metro e meio sobre uma bancada rasa e perigosa.
Que bicho safado! Ele sabia que estava dando ondas e me trouxe até aqui. Não acredito!
O Rato sorria com a língua de fora e dava saltos no ar tentando chamar a atenção. Seguiu correndo na direção da ponta de pedras e continuou latindo como se tivesse algo mais a me mostrar. Eu neste momento só tinha na cabeça uma ação; buscar a minha prancha...continua

01 julho 2008

CANDICE - capítulo 19


leia os capítulos anteriores - Sabendo através do diário, que as garotas levariam mais ou menos uma semana para ir e voltar à Wavetoon, decidi ficar por ali mesmo e tentar achar a grana roubada. “Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão” disse pra mim mesmo sem muita convicção e confesso, até com um pouco de vergonha. Mas na realidade eu já estava decidido a botar a mão nessa grana e dar uma virada na minha vida.

Mesmo com a escuridão lá fora, resolvi pegar o bote inflável ir até o continente buscar a minha comida. Elas não encontraram os meus mantimentos quando me assaltaram, porque estavam dentro de um isopor embaixo do carro. Pensei em protegê-los do sol. Sorte minha, lá, eu tinha comida suficiente para ficar aqui por mais de uma semana.
Peguei as minhas coisas, e meio zonzo, com a barriga roncando, segui em direção à pequena baía virada para o continente. Enquanto caminhava pela trilha, meu amigo Rato pulava incessantemente no facho da lanterna, feliz, sorrindo e com a língua de fora. Grande figura o Rato. Sempre fico impressionado com a capacidade destes caras, de serem incondicionais, de se entregarem totalmente as situações e as pessoas, de tornarem a vida mais leve a sua volta. A gente tem muito a aprender com eles.

Chegando à prainha, coloquei minhas coisas no bote e empurrei-o até a água, chamei o Rato para dentro, puxei a corda do arranque e na primeira tentativa o ruído do motor invadiu a noite. Naquele momento, a lembrança do tubarão que me cercou quando vim para a ilha, invadiu meus pensamentos. Agarrado no leme e com um nó na barriga, acelerei rumo à escuridão do mar... segue

11 junho 2008

CANDICE capitulo 18

leia os capítulos anteriores - Ao chegar de volta à casa, enquanto comia uma banana colhida ao lado, no jardim, minha atenção novamente se dirigiu para o caderno. Mesmo tratando-se de uma garota que havia me assaltado e roubado todas as minhas coisas, não pude deixar de me sentir um pouco desconfortável em invadir a sua intimidade, apesar disso, não resisti e voltei a ler o diário para tentar descobrir mais informações sobre o que aconteceu ali na ilha. Fui lendo parágrafos isolados, na tentativa de achar rapidamente a informação que agora movia o meu interesse por aquele lugar. Consequentemente, em flashes, a vida das garotas na ilha foi tomando forma no meu imaginário;

[...] “Foi legal o plano da Margô, de pegarmos emprestado o veleiro do Dida. Não teríamos conseguido sair de Wavetoon tão rápido e tão seguras sem ele. Todas as saídas por terra provavelmente foram bloqueadas assim que a polícia soube do assalto. Com o Dida na Austrália, teremos um refúgio seguro e que nos dará abrigo e autonomia por no mínimo um ano...”

[...] VINTE E CINCO MILHÕES DE REAIS!!! Acabamos de contar aqui mesmo no barco, no meio deste oceano escuro a caminho do nosso esconderijo. Nem acredito, dá para fazer planos para o resto da vida...

[...] “estamos ficando sem comida e em breve será inevitável irmos à Wavetoon buscar mantimentos para mais algum tempo. A Margô insiste para pegarmos o bote inflável e irmos até o continente tentar conseguir alguma comida. Este pedaço de terra é deserto e acho que dificilmente teremos sorte. Entretanto ela diz que viu uma fogueira na praia ontem à noite, e que deve haver alguém acampado por lá...”

[...] “O cara parecia legal, fiquei até com pena dele, o deixamos numa super-roubada. Pegamos todas as coisas do coitado, mas comida que é bom, não encontramos lá muita coisa. Ele tinha apenas algumas bolachas e barras de chocolate...”

À noite caiu sem eu notar e focado em achar a informação que eu queria, acabei lendo todo o caderno da Candice. Fiquei sabendo muito sobre ela e confesso comecei achá-la bem interessante, talvez influenciado indiretamente pelo seu cheiro que insistia em permanecer por toda a casa, mas com certeza também, pelas coisas que ela havia escrito ali, naquele caderno. A imagem da minha primeira namorada, também Candice voltou a invadir minha alma, mas a minha barriga com fome, acabou com qualquer devaneio, chamando à atenção sobre si. ...segue

04 junho 2008

CANDICE capitulo 17

leia os capítulos anteriores - PUTZ, ELAS ROUBARAM UM BANCO E ESTÃO ESCONDIDAS AQUI!
Meio tonto, saí e sentei-me na soleira da porta. Fiquei ali olhando para o mar e tentando processar toda aquela quantidade de revelações que obtive em apenas uma página do diário da Candice. Não conseguia parar de pensar na refeição que eu havia feito há poucos instantes. Minha barriga começou a se mexer, influenciada pela informação da quantidade de gorgulhos que eu acabara de engolir com feijão. Apesar de nunca ter prestado à atenção em um gorgulho, fiquei imaginando eles se movimentando nas minhas vísceras. A imaginação tomou conta. Contrações, náusea...arghhhhh! Saí correndo e vomitei a feijoada no canto da casa. Aliviado fui à procura de um pouco d’água e voltei a sentar na soleira.

Fiquei ali pensando no clima que estava rolando entre as garotas, e inevitavelmente comecei a fantasiar, sugestionado pelo perfume de Cândice que exalava de uma blusa pendurada dentro da casa. Enquanto meu devaneio se aprofundava em detalhes, um “insight” ocupou a minha mente como um quarto que se ilumina quando tocamos no interruptor.
Levantei excitado pelo impacto da revelação; UAUUUU, SE ELAS ROUBARAM UM BANCO, A GRANA DEVE ESTAR POR AQUI!
De fantasias eróticas, passei a sonhos megalomaníacos de como gastar a grana das garotas viajando pelo mundo, surfando as melhores ondas do planeta em lugares impensados. Quando me conectei novamente com a realidade, estava caminhando pela praia, seguido pelo Rato. O sol vermelho tingia o horizonte e uma brisa suave do continente desenhava a direita perfeita que insistia em continuar rolando no canto da praia.

Isso muda tudo! Pensei agachado, acariciando a cabeça do meu novo amigo, enquanto ambos olhávamos para as ondas que não paravam de rodar na direção da praia. Obviamente decidi ficar e passar a noite ali. Pela manhã tentaria descobrir onde elas esconderam a grana. Voltei caminhando focado em conseguir alguma coisa para comer. Após a trágica revelação sobre minha última refeição, e suas conseqüências, a minha barriga voltava a reclamar os seus direitos. segue...

28 maio 2008

CANDICE - capítulo 16


Abri numa página marcada.

Já nas primeiras linhas dava para perceber que se tratava de algum tipo de diário. O diário de Candice.


20/05/2007


Amanhã vamos à Wavetoon. Vai ser arriscado depois da merda que fizemos por lá e ainda por cima com toda a polícia atrás de nós. Sei lá...Mas valerá o risco. Fazem dois meses que eu não vejo ninguém além da Margô, que por sinal anda muito chata. É inevitável, eu também devo estar um saco, afinal duas mulheres convivendo solitárias numa ilhota perdida sem nada pra fazer...
A Margô tem me cantado insistentemente, ela se insinua todo o dia, acho que movida por esta solidão e pela imensidão do mar aí na frente, que faz parecer que só nós duas existimos no mundo. Infelizmente eu não tenho nenhuma atração por garotas. Ela me diz que também não curte, mas que poderíamos experimentar uma noite de amor, que talvez seja legal, pois provavelmente teremos que ficar por muito tempo escondidas nesta ilha. Um monte de argumentos pra me convencer, ela está realmente afim. Sei não...
O que me mantém viva nessa ilha e me faz suportar este exílio compulsório é o surf que rola por aqui. Esta onda aí a frente tem me feito passar os dias em êxtase e a Ponta Sul quando quebra...UAU!!! É o paraíso. A Margô deveria surfar. O surf faz a gente se conectar, achar o centro, mas confesso que há noites em que as suas propostas me balançam...
Essa ida à Wavetoon será providencial, pegar comida para mais alguns meses (Acabou. Só restou um feijão cheio de gorgulho que acabei de colocar no fogo mas acho que não terei coragem de comer), algumas roupas, objetos e livros (quero aproveitar todo este tempo)... Lá teremos que ser muito discretas e rápidas, não vou nem poder falar com a minha mãe. Ela deve estar preocupada e com muita vergonha do que fiz. Depois do assalto tivemos que sumir rapidamente, sem deixar rastros e não tenho como avisá-la. Acho que a polícia deve ter grampeado seu telefone.
Ter esquecido meu celular dentro do banco foi um vacilo imperdoável, deu a eles todos os meus contatos, todos os meus amigos. Será muito arriscado tentar falar com qualquer pessoa que eu conheça. Mamãe terá que agüentar. A Margô está me chamando lá da praia. Parece que o nosso barco está pronto. Tenho que ir!

15 maio 2008

CANDICE capitulo 15

Leia os capítulos anteriores Só depois da fantástica refeição, recostado na cadeira e com os pés sobre a mesa, parei para observar aquela casinha. A tarde já ia pela metade e uma luz amarelada invadia o interior ressaltando as cores e as texturas, transformando aquele ambiente simples num cenário plástico e bucólico. Fui passando os olhos pelo espaço, me detendo hora aqui hora ali, olhando para detalhas que geralmente não prestamos atenção quando estamos familiarizados com um lugar. Apesar de simpática a casa parecia meio detonada. Se tem algo que realmente me incomoda, são coisas quebradas ou mal cuidadas.

Saí caminhando pelos cômodos na procura das minhas coisas, dando uma geral na casa, entretanto eu não podia deixar de observar a quantidade de coisas que necessitavam manutenção e conserto. Fui sendo tomado por um sentimento de posse e comecei estranhamente a me sentir em casa por ali, fazendo planos mentalmente, para iniciar a manutenção. Fuçando no quarto, embaixo de uma das camas, encontrei todas as minhas coisas dentro de uma sacola. Minha carteira, chaves, neoprenes enfim tudo que eu podia lembrar estava ali. HUHUUUUU!!! Fiquei amarradão e comecei a urrar de alegria, coisa eu deixou o Rato bem assustado. O cachorro saiu correndo pela porta e foi em direção à rua.

CONSEGUI! Parece que a minha missão por aqui está concluída! Foi o que pensei, já me preparando para ir embora. Planejava pegar o bote das garotas que estava na praia pela qual cheguei ali e cair fora rapidamente. Fui me dirigindo à porta da rua, quando me deparei com um caderno que chamou minha atenção sobre um aparador embaixo da janela. Não consegui conter minha curiosidade, ali mesmo de pé, comecei a ler...continua

08 maio 2008

CANDICE - capítulo 14

Leia os capítulos anteriores - Não lembro de ter surfado uma quantidade maior de ondas em toda a minha vida numa mesma caída. Clássicas, uma após a outra, elas quebravam solitárias para o meu êxtase. Sem ninguém para compartilhar, eu não sabia o que fazer com tanta onda. No início era um carrossel, eu ia e voltava inebriado com a perfeição, chegava no pico virava a prancha e dropava a primeira que se apresentava. Passado algum tempo comecei a escolher as melhores e no fim de uma hora não conseguia pegar mais nenhuma, o jejum compulsivo havia me deixado totalmente sem energia.

Saí do mar acabado, para a alegria do Rato que veio ao meu encontro fazendo a maior festa, mas a minha cabeça e a minha barriga só pensavam na feijoada que eu tinha encontrado sobre o fogão. Saciado pelo surf de alto nível fui aos poucos voltando a conectar-me com a realidade do meu entorno. Um tipo de percepção diferente me trazia para o momento presente. Enquanto caminhava meio zonzo em direção a casa, o Rato me cutucava por todos os lados fazendo sempre questão de marcar sua presença. Comecei a olhar com atenção para ele, para a sua alegria, para aquele lugar maravilhoso, para aquela casa na minha frente e fui tomando consciência da situação surreal na qual eu me encontrava, como se estivesse saindo de um estado onírico e acordando em lugar desconhecido. Fiquei lembrando da noite anterior, do assalto, e de todo o trabalho pra chegar até ali e tentar resgatar as minhas coisas. Logo, a imagem daquelas garotas que eu nem mesmo havia visto o rosto, entraram no meu fluxo de pensamentos.

As Garotas! Lembrei delas.
Onde estariam as garotas? Que maluco deixaria uma panela no fogo e desapareceria?
Uma situação bem estranha.
Minha barriga roncou me trazendo novamente para momento presente. Parei no degrau da soleira e olhei para o mar. Uma série irretocável quebrou solitária no canto do morro. O sol morno abraçava o meu corpo e o meu espírito estava em paz.
Fodam-se as garotas! Pensei.
Colhi umas bananas na lateral da casa, entrei, preparei um arroz e comi a melhor feijoada da minha vida. continua...


23 abril 2008

CANDICE - capítulo 13

Leia os capítulos anteriores Fiquei em êxtase! Séries após séries quebravam exatamente iguais junto ao canto do morro. Este, coberto por um mato de um verde intenso, contrastava com a maravilhosa cor daquela água. Lisérgico!
Tenho que cair nesse mar! - Era a única coisa que passava por minha cabeça naquele momento. Esqueci das garotas e hipnotizado pela cena, fui caminhando até a beira da praia e permaneci ali parado olhando aquele momento mágico.

UAU! UAU! - O Rato parecia me chamar.
Virei rapidamente a cabeça em direção aos latidos. No canto norte da baía, em frente a uma casinha de madeira, estava o meu novo amigo, sentado esperando-me.
Fudeu! - Agora não tenho como escapar delas, pensei.
Relaxei e saí caminhando em direção a casa determinado a enfrentar a situação.

A porta e as janelas estavam entreabertas e da pequena chaminé saía uma fumaça branca em direção ao mar. O Rato, enquanto eu caminhava na sua direção, parou de latir e abanava o rabo sorrindo. Quem tem cachorro sabe do que estou falando.
Apreensivo, cheguei próximo à porta e empurrei-a levemente, olhei pela fresta e entrei. Ninguém lá dentro. Da panela sobre o fogão à lenha, exalava um cheiro agradável que fez minha barriga roncar. Fui até lá e levantei a tampa. A visão e o cheiro da feijoada fizeram-me salivar, mas minha cabeça estava conectada com aquelas ondas lá fora. O rango parecia pronto. Tapei novamente a panela, retirei-a da chapa e desliguei o fogão. Fui atrás da minha prancha.

A casa era bem pequena e simpática, tinha um dormitório com duas camas, um banheiro e uma sala conjugada com a cozinha. Mas assim como o Rato, ela estava em péssimas condições. Janelas emperradas, telhas quebradas, vazamentos diversos, assoalho solto e muitos outros problemas que detectei enquanto dava uma geral atrás da bóia.

Nada da minha prancha. Saindo pela porta dos fundos, enquanto eu descia a escadinha de acesso pude ver a ponta do bico da prancha embaixo da casa, projetando-se para fora.
Meu coração bateu feliz com o reencontro. Puxei a tábua com carinho, atirei a camisa sobre a janela e saí correndo na direção do pico, acompanhado pelo meu amigo Rato...continua

16 abril 2008

CANDICE capitulo 12

Leia os capítulos anteriores O cachorro dava saltos no ar. Entre um salto e o outro, colocava o peito e o focinho junto ao chão com as patas estendidas à frente. Ficava me olhando de baixo pra cima e abanava o rabo, enquanto emitia uma mistura de grunido com choro, parecendo tentar me sensibilizar.

-Você parece feliz em me ver! Falei para ele sorrindo. Pelo jeito ele compreendeu o que eu disse, pois imediatamente saltou sobre mim. Quando consegui tomar consciência da situação, eu estava deitado no chão tendo o rosto lambido pelo carismático labrador.
Ao menos enquanto me babava não estava latindo.

Empurrei o bicho, levantei, sacudi a areia e iniciei um cafuné nas suas orelhas tentando consolidar nossa precoce amizade. Observando de perto, ele parecia mal tratado. O pêlo estava cheio de carrapichos, tinha uma ferida aberta na perna e era muito magro. Apesar de tudo demonstrava um bom humor fantástico que imediatamente conquistou a minha simpatia. Rato de praia! Pensei.

Saímos caminhando lado a lado. Na trilha que agora começava a descer levemente, o mato se fechava em forma de um túnel verde quase na altura da minha cabeça. Não sabia muito bem para onde estávamos indo, mas pressentia que era em direção à praia. Embora não fizesse nenhum sentido, racionalmente pensando, eu me sentia bem mais protegido com o Rato ao meu lado. Foi assim que comecei a chamá-lo.

A trilha fez um curva para o sul e o Rato saiu correndo em direção à luz. Desapareceu do meu campo de visão. Tínhamos chegado ao fim do caminho. Permaneci prudentemente dentro do túnel verde tentando não ser visto pelas garotas. De onde me encontrava, eu tinha apenas uma visão parcial da areia e assim, cheio de cautela, fui me aproximando da saída. Uma panorâmica abriu-se para mim. Jamais esquecerei a primeira vez que vi aquela linda e minúscula baía com areias claras e um fundo de seixos brancos. Contei sete linhas de águas turmalina azul, transparentes e paralelas, contornarem o canto sul e virem desenrolando a crista uma à uma, modeladas pelo terral com extrema perfeição, até a beira da praia...continua

09 abril 2008

CANDICE - capítulo 11

Leia os capítulos anteriores - Realmente eu não chamei a atenção do bicho e enquanto ele preocupava-se com as tainhas eu conseguia restabelecer meus batimentos cardíacos. Encontrava-me bem próximo à beira, testei o pé e encontrei o fundo. Água pela cintura. Olhei para trás e vi a barbatana circulando lá fora. A vida me deu uma chance pensei e meu coração encheu-se de gratidão por estar vivo, uma euforia tomou conta de mim e saí correndo da água num êxtase que jamais havia experimentado.

Na minha frente um verde mato denso mediava o céu azul e a areia branca. Parado em pé na praia fui movendo a cabeça lentamente, desfrutando cada pedaço daquela pequena baía maravilhosa que impressionava a minha retina. Quando enquadrei o canto sul o bote das garotas entrou na minha área de visão e subitamente meu corpo saiu do êxtase. Eu havia esquecido delas por alguns momentos. Novamente adrenalina. Corri até o bote já me sentindo desprotegido, meio agachado e tentando me esconder, como se isso fosse fazer eu ficar menos visível. Cheguei ofegando, alerta. Comecei examinar o local atentamente. Num canto da proa, entre o fundo do bote e a lateral inflada, meu Ipod espremido, como se estivesse pedindo ajuda, sorriu pra mim. Peguei o cara, coloquei os fones, apertei no play e “The Low Spark of High Heeled Boys” preencheu o meu espírito... dica do Kadu.

If you had just a minute to breathe
And they granted you one final wish
Would you ask for something like another chance?
Or something similar as this?
Don’t worry too much
It’ll happen to you
As sure as your sorrows are joys
And the thing that disturbs you is only the sound of
The low spark of high-heeled boys…

A trilha sonora modificou as minhas percepções sobre a situação e agora tudo parecia Ok. Caminhei na direção das pegadas que saiam do bote e entravam numa trilha no mato. O estreito caminho de areia branca, serpenteava no meio da densa vegetação em direção ascendente. Passei um portal de palmeiras e entrei no meio da vegetação. Conforme eu avançava, o cheiro da flora preenchia minha cabeça com memórias agradáveis enquanto a luz dura da praia era gradualmente filtrada pelas árvores tornando-se um suave sombreado temperado pela brisa do continente deixando a temperatura bem agradável. Depois de alguns minutos de subida, encontrei uma camiseta minha caída ao lado da trilha, dei mais alguns passos e um pano “vermelho cereja” chamou minha atenção pendurado num galho mais adiante. Quando coloquei as mãos nele, um perfume magnífico impregnou minhas narinas e imediatamente lembrei da garota que me assaltou na praia. Embora não tenha visto seu rosto meu coração batia forte pelo seu cheiro!

If I gave you everything that I owned
And asked for nothing in return
Would you do the same for me as I do for you?
Or take me for a ride
Strip me of everything including my pride
But spirit is something no one destroys
And the sound that I’m hearing is only the sound
The low spark of high-heeled boys

Candice! Continuei caminhando pensando nela quando um enorme cão labrador fechou a trilha na minha frente, latindo freneticamente enquanto abanava o rabo.
Tô perdido! pensei...continua

03 abril 2008

CANDICE - capítulo 10

Leia os capítulos anteriores – A distância até a ilha não era muito grande, mas quem já nadou no mar sabe que é bem diferente do que fazê-lo numa piscina. A água é mais densa e constantemente perdemos a direção. Existe também, aquele sentimento desagradável de sermos uma isca totalmente desprotegida e sem nenhuma zona de proteção ou escape no caso de alguma criatura sinistra aparecer. Foi exatamente isso que aconteceu quando eu me encontrava no meio do caminho entre a ilha e o continente.

Eu nadava bem relaxado, economizando energia, de olhos fechados por causa do sal e do sol. Entre algumas braçadas abria-os para acertar o meu rumo. Quando levantei o braço e tirei a cabeça lateralmente para fora da água, pude ver ao meu lado, há poucos metros, uma enorme mandíbula emergir, mastigando uma tainha de uns 10 kg. O olhar parado da criatura alinhou-se com meu e uma descarga gelada percorreu a minha coluna e invadiu o meu corpo. Meu coração disparou e o pânico tomou conta da minha alma. Foi quase inevitável assumir espontaneamente o papel de presa ou de isca e imediatamente parei de nadar e comecei a debater-me.
A criatura alinhou o dorso no nível da água e ficou dando voltas em mim.
Acima da superfície, aquela sugestiva barbatana, arquétipo da morte certa, com muita dor e pavor, completava o meu desespero. O bicho imergiu desaparecendo da minha visão. Não sou religioso, mas também não sou ateu. Imediatamente comecei a rezar prevendo o meu trágico desaparecimento. Imagens desconexas da minha vida invadiram a minha cabeça. Meu corpo adrenalizado, debatia-se, enquanto eu tentava pedir para alguma entidade superior que o meu fim fosse breve.

CHUUUUUHHHAAAAA!!! CLACK! CLACK! A mandíbula surgiu novamente mais distante, com outro peixe entre os dentes.
– Acho que a coisa não é comigo! Pensei em um segundo, lembrando dos exercícios de pranayama que eu havia aprendido nas aulas de Ashtanga.
- Tenho que me acalmar! falava pra mim, enquanto eu tomava consciência de que estava no meio de um cardume de tainhas. Imediatamente comecei a controlar a minha respiração, enquanto observava os movimentos do tubarão. Fui me acalmando, comecei a nadar lentamente, para fora da sua área de alimentação, com todo o cuidado, tentando não fazer barulho na água. Continua...

25 março 2008

CANDICE - capítulo 09

Leia os capítulos anteriores – Mais relaxado, sentei encostado numa pedra e fiquei algum tempo observando a ilhota. Ela é realmente bem próxima da costa, uns 500 metros da terra, calculei.
Baseado no fato de que depois da ilha, a costa toda parecia intocada, e que ela era igualzinha a do meu sonho na noite anterior, ponderei para mim mesmo que as garotas só poderiam estar por lá. É muita coincidência, pensei. Resolvi então descer o morro em direção à ponta da baía, para chegar mais próximo da ilha e observá-la melhor.

Enquanto descia, ia prestando atenção no caminho para não tropeçar nas pedras e buracos do percurso e assim de vez em quando levantava a cabeça para olhar o meu objetivo e acertar o meu rumo. Paisagem exuberante! Conforme eu me aproximava da ponta de pedras, a cada passo, eu descobria novos recantos e encantos na enseada, enquanto o sol da manhã aquecia meu lombo e o vento da terra batia nas minhas costas trazendo um cheiro de mato molhado. Apesar da minha situação, me peguei olhando para tudo aquilo com o deslumbramento de uma criança. Eu sorria e estava feliz.

Numa das vezes em que levantei a cabeça, minha visão enquadrou a ilha e fez com que meu coração batesse mais forte. Uma fumaça vertical subia por trás de um morro no canto norte. Corri os poucos metros que faltavam até a ponta de pedras mais extrema do continente e afinando a visão fiquei analisando cada detalhe da paisagem em busca de mais vestígios. Numa pequena praia de areias brancas bem no meio da ilha, estava o elemento que faltava para confirmar minhas suposições. No canto sul da prainha, encostado em uma pedra, visualizei o bote das garotas. O sentimento de felicidade que preenchia o meu peito, movido pela beleza do lugar, transformou-se rapidamente em euforia e quando dei por mim, estava nadando afoitamente em direção a ilhota, imerso na aventura em elas haviam me metido. Continua...

19 março 2008

CANDICE – capitulo 8

Leia os capítulos anteriores - Elas levaram todo o dinheiro, a minha segunda prancha, meus neoprenes, minhas roupas, a minha comida e além de tudo, as chaves do carro. Caraca que roubada! Agora estava eu ali, há 150 km de qualquer lugar civilizado, na beira de uma praia deserta onde só se entra de 4x4 e onde a chance de alguém aparecer é nenhuma. Levantei os olhos para o mar e uma série verdinha quebrou perfeita lambida pelo terral, lembrando-me que minha prancha estava com a quilha quebrada. Fiquei olhando aquela cena, hipnotizado pelas ondas e comecei a recordar a noite passada. Imagens do barco das garotas dirigindo-se para a direita, em direção ao canto da praia invadiram a minha cabeça e preenchido por uma onda de otimismo, em uma súbita iluminação deduzi:

- É claro, elas estão no canto da praia, do outro lado do morro!
Num impulso incontido, saí correndo pela beira da praia em direção ao lado oposto da baía. Estou sem comida, melhor economizar energia pensei, diminuí a velocidade e logo eu estava prudentemente caminhando. Quando cheguei ao canto, contornei as rochas e comecei uma escalada vertical em direção ao topo do morro. Meu coração batia forte embalado pela inclinação do percurso, pela ansiedade e ao mesmo tempo pelo temor de ser corrido à bala ao encontrá-las. Nos últimos metros antes de chegar ao cume, tive bastante cuidado e rastejei ridiculamente pela grama, esfolando os joelhos e os cotovelos nas pedrinhas que estavam no caminho. O panorama do lado sul do morro foi abrindo-se progressivamente à minha visão enquanto eu avançava com prudência. Fui esquadrinhando a paisagem à procura de algum sinal das garotas, da beira da praia até a ponta do morro. Nenhum vestígio. Mas um elemento novo surgiu na paisagem e me deu certeza de que eu havia encontrado o que estava buscando. Uma pequena ilha, bem ali na minha frente. Do lado da baía onde eu estava acampado era impossível vê-la, mas dali, ela parecia bem próxima da costa.
- É a ilha que apareceu no meu sonho! aquela para qual o pai de Candice apontava. continua...

12 março 2008

CANDICE – capitulo 7

Leia os capítulos anteriores - Levei a mão à cabeça e pude sentir o líquido morno sobre um caroço dolorido que começava a se formar no topo da minha testa. Sentei. Ainda estava escuro e chovia muito, o ferimento começava a latejar. O sangue escorria por trás da minha orelha direita e ia alojar-se na gola da minha camisa, empapando o meu ombro. O corte foi profundo, especulei, já que eu não me sentia animado em colocar o dedo na ferida para avaliar a situação real.

A barraca começou a encher de água. Quando bati com a cabeça na cumeeira, além de abrir um rasgo nela, abri outro na lona que agora deixava a chuva entrar. A minha situação era bem desagradável. Que karma! Pensei enquanto reconstruía mentalmente os acontecimentos da noite passada e ia minando a minha mente com pensamentos negativos e de auto-compaixão, enquanto meu corpo se encharcava e tremia de frio.

Adormeci novamente encostado em cobertores e objetos amontoados no fundo do meu patético abrigo e acordei com o primeiro raio de sol ferindo os meus olhos. O dia estava lindo e não havia nuvens no céu. Saí da barraca lentamente e logo na porta fui beijado suavemente por um brisa morna que vinha da terra, o sol, apesar de baixo, já dava indícios de como seria o dia e abraçava o meu corpo maltratado pela noite fria e úmida, com sua luz cálida e alegre. Dia pra ser feliz, pensei enquanto tentava ordenar meus pensamentos, mas logo que olhei para frente, já vi a minha prancha novinha com a quilha quebrada na noite anterior. Hora de avaliar os prejuízos e pensar no que fazer, falei pra mim enquanto caminhava em direção ao meu carro que se encontrava com as portas abertas e os bancos encharcados. A ira voltou a invadir o meu peito. Respirei fundo e comecei a contabilizar. continua...

06 março 2008

CANDICE - capítulo 06


Leia os capítulos anteriores - Quando o instinto falou mais alto, Candice (minha namorada adolescente que falei antes) e eu, deitamos ali mesmo na beira da praia. Aconchegamo-nos na areia morna abraçados pelo calor do sol. A água ia e vinha lambendo nossos pés enquanto compartilhávamos o cheiro e o calor dos nossos corpos em movimentos ritmados circulares e deslizantes facilitados pelo suor. Os lábios úmidos, hora tocavam-se suavemente, hora queriam engolir-se. Respirávamos centenas de finas e inusitadas sensações banhados por uma suave e oscilante onda de prazer. Nossas mãos exploravam e a minha tentava desfazer em vão o tope do seu sutiã enquanto ela puxava meu calção que teimava em não ceder. Não existia mais razão ou pensamento, apenas a sensação de BOM!.. BOM!... BOM!... Fugaz alegria de ser criança e animal na inocência do sexo.

Diante de nós surgiu seu pai, furioso, apontando um crucifixo enorme na minha direção.
Meu olhar fixou-se na aura da cruz que brilhava. O mar avançou sobre nós e quando recuou, abriu-se uma enorme cratera abaixo dos nossos corpos. Candice, despencou no buraco e com ela todos os meus pertences, minha prancha, minhas roupas, tudo que eu tinha na vida sumiu na escuridão. Fiquei pensando porque eu não tinha caído junto. Movendo a cabeça para cima, meu olhar se encontrou com o de seu pai que segurava o meu braço enquanto eu balançava no abismo. Ele já não parecia furioso, pelo contrário, estava visivelmente preocupado com a minha situação naquele momento. Minha vida estava literalmente na sua mão e se ele me soltasse eu seria literalmente abduzido pelo buraco. Mas não foi o que ele fez. Jogou o crucifixo no abismo, que caiu iluminando o vazio e me puxou pra fora da cratera de uma só vez. No momento seguinte ele apontava para uma ilha querendo me dizer algo quando alguma coisa explodiu... KAKABOOOOOOM!! Um enorme trovão me tirou abruptamente de dentro do sonho. Acordei assustado sem saber muito bem onde eu estava...estava, fiquei de pé de uma só vez e entortei a cumeeira da barraca e com a cabeça. Continua...